[Citação da semana] - Admirável Mundo Novo



"A felicidade real parece bem sórdida em comparação às compensações que se encontram na miséria. E sem dúvida a estabilidade não é tão bom espetáculo quanto a instabilidade. E estar contente nada tem do encanto de uma boa luta contra a desgraça, nada do pitoresco de uma batalha contra a tentação, nem de uma derrota fatal pela paixão ou pela dúvida. A felicidade nunca é grandiosa."


Admirável Mundo Novo, Aldous Huxley



[Resenha] - Livro: Admirável Mundo Novo

[Resenha] - Livro: Tartarugas até lá embaixo

John Green, nos agradecimentos do livro, diz: "Pode ser um caminho longo e difícil, mas os transtornos mentais são tratáveis. Há esperança, mesmo que seu cérebro lhe diga que não.". Esse trecho é uma boa introdução para o assunto do livro Tartarugas até lá embaixo, de 269 páginas, escrito pelo renomado John Green e publicado pela Intrínseca.

Aza Holmes, personagem principal do livro, luta diariamente contra sua própria mente. Ela tem TOC (Transtorno Obsessivo Compulsivo) e é constantemente dominada pelos seus pensamentos, que se fecham no que ela chama de "espirais". Por mais que ela tente, é sempre difícil deixar essa espiral. Aza convive com a dúvida de sua existência: ela pensa por conta própria ou é apenas conduzida pelas espirais? Seus pensamentos obsessivos são sobre as bactérias - aquelas que habitam seu corpo e aquelas que podem, por algum motivo, vir a habitar. Além disso, possui a compulsão de cortar seu dedo com a própria unha, para saber que ela é real, e sempre trocar os band-aids.
"O mais apavorante não é girar sem parar numa espiral crescente, é girar sem parar na espirar que se afunila. É ser sugado para um redemoinho que vai se fechando mais e mais e esmagando seu mundo até você estar apenas girando sem sair do lugar, preso numa cela que é exatamente do seu tamanho e nem um milímetro a mais, até você finalmente se dar conta de que na verdade não está preso na cela. Você é a cela."
Paralelamente à mente de Aza, existe sua vida. Conhecemos sua melhor amiga, Daisy, que é uma escritora de fanfics sobre Star Wars. Outro personagem central é Davis, um garoto que Aza conheceu no acampamento para crianças que perderam um dos pais.
"Eu o amava, e pensei: talvez nunca mais o veja, e sempre sentirei saudade, e isso não é terrível?"
Os caminhos de Aza e Davis voltam a se cruzar quando o pai de Davis, o riquíssimo Russel Pickett, desaparece, e é ofertada uma recompensa por notícias de seu paradeiro. Daisy decide que Aza precisa se reencontrar com Davis, para que elas tenham chance de obter informações. No entanto, eles acabam ganhando grande importância na vida um do outro, muito além do dinheiro.
“Um dos desafios da dor, seja física ou psíquica, é que só podemos nos aproximar dela através de metáforas. Não temos como representá-la como fazemos com uma mesa ou um corpo. De certo modo, a dor é o oposto da linguagem.”
Tartarugas até lá em baixo é uma história sobre saúde mental, amizade, superação, amor, dinheiro, ambição, luto. John Green consegue, como sempre, incluir vários assuntos importantes.
"É muito raro encontrar quem veja o mesmo mundo que o seu"
Achei o livro interessante em sua abordagem sobre o TOC, ainda tão desconhecido e banalizado pela população. Vale ressaltar que John Green, o autor do livro, possui TOC. O livro foi um projeto pessoal, com o intuito de mostrar às pessoas como é viver com as espirais. No entanto, achei a história um pouco fraca, se comparada aos outros livros do autor.

E aí, já leram o livro? O que acharam?

[Evento] - Jogo do Livro 2017

XII Jogo do Livro e II Seminário Internacional Latino Americano
XII Jogo do Livro e II Seminário
Internacional Latino Americano
Bom dia, ratinhos!

Como vocês devem saber, estou fazendo mestrado em Educação na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). 

A minha pesquisa é dedicada à literatura infantil e ainda nem acredito na oportunidade que estou tendo de estudar na Faculdade de Educação (FaE)! 

Pois bem, hoje estou aqui para convidar vocês para o Jogo do Livro 2017, que será realizado de 8 a 10 de novembro. A inscrição como ouvinte custa R$ 50. 

O XII Jogo do Livro e II Seminário Latino-Americano tem como tema "Palavras em Deriva". Ele é organizado pelo Grupo de Pesquisa do Letramento Literário (GPELL), vinculado ao Centro de Alfabetização Leitura e Escrita (Ceale), da FaE. 

A conferência de abertura será conduzida pelo escritor Antônio Risério. Entre os convidados, também estão os ilustradores Odilon Moraes e Nelson Cruz, o escritor mineiro Sebastião Nunes e as pesquisadoras Maitê Dautant (Venezuela), María Emilia Lopez (Argentina) e Maria de Fátima Fernandes (Cabo Verde). 

Além disso, durante o evento, teremos performances, como a de Ricardo Aleixo, além de oficinas de vários temas legais, como texto teatral, criação de personagens e livros de artista. Abaixo, deixo links importantes para quem ficou interessado. 


Se tiver alguma dúvida, deixe um comentário que eu entro em contato. Nos vemos lá! 

[Thaís Diz] - A despedida do escritor


A despedida do escritor
Thaís Cabral Leocádio

quando um escritor se vai
eu fico triste, muito triste
mas a tristeza passa rápido
por saber que quem escreve não morre de verdade

sempre fica um pedacinho dele
na tinta colada no papel
ora gasto, sujo, marcado a lápis
ora imaculado nas prateleiras das livrarias
ora nas estantes das bibliotecas
onde um estudante esqueceu o bilhete do cinema
ou o papel da bala que ganhou do amor

o escritor vivo fica em outras linguagens
que se inspiraram na obra dele
fica vivo na lembrança
de quem se apegou aos personagens
e no carinho da criança que pega o livro
por acaso e descobre a história de 73
com olhar de novidade
sem saber que naquele ano
nem mesmo sua mamãe havia nascido

a saudade fica dolorida
para quem conheceu a pessoa atrás do escritor
que dizia palavras nem sempre trabalhadas
que pintava de cores descombinadas
os pijamas, as saladas e as dores
no dia a dia

para aqueles que conheceram um só lado do escritor
a saudade pode ser curada
virando uma página
escolhendo um marcador
olhando para o quintal e rememorando versos
talvez ligando na tomada
o leitor digital de vida
olhando para o que foi feito
de caneta e lápis-de-dor

quando um escritor se vai
eu fico triste, muito triste
por pensar que ele talvez
não tenha ficado sabendo
que no criado-mudo de muitos quartos
uma obra sua
em capa mole
cheia de orelhas
e ácaros
repousa a paz que o espírito humano
precisa experimentar antes de dormir

o escritor fica vivo
até nas linhas que deixou de escrever
porque quem passa por aqui
exalando poesia e arte
consegue um jeito - queria saber como! -
de continuar pulsando
como uma tatuagem em papel pólen
agarrada na memória


Ângela Lago, 1945-2017 

[Resenha] - HQ: Coleção História Paladinos Marvel

Coleção Histórica Paladinos Marvel, Panini
Coleção Histórica Paladinos Marvel, Panini
A HQ "Coleção Histórica - Paladinos Marvel 2" traz aventuras dos Heróis de Aluguel Luke Cage e Punho de Ferro. Publicada pela Panini em papel LWC, a revista especial tem formato estadunidense e 164 páginas.

Qual a origem de Luke Cage? Como adquiriu seus poderes? A primeira história presente na revista responde a essas perguntas. Preso injustamente em uma emboscada planejada pelo ex-melhor amigo, Lucas é perseguido pelos guardas da prisão. Eles insistem em machucá-lo.

Coleção Histórica Paladinos Marvel, Panini
Luke Cage
Um dia, o homem é convidado por um médico para participar de uma experiência que, segundo o doutor, transformaria a humanidade. Mesmo sabendo que corria risco de morrer durante o procedimento, o presidiário resolveu aceitar. Uma série de erros, no entanto, aumentaram o efeito das reações químicas no laboratório, fazendo com que a "cobaia" adquirisse uma força sobre-humana.

Depois de fugir da prisão e adotar uma nova identidade, com o nome de Luke Cage, o fortão protagonista passa a oferecer serviços de super-herói em troca de dinheiro. É o primeiro Herói de Aluguel.

A Netflix tem uma série sobre o personagem Luke Cage. Clique aqui para assistir.

Coleção Histórica Paladinos Marvel, Panini
Punho de Ferro
Em seguida, o leitor é apresentado ao Punho de Ferro. Não é mostrado como o homem adquiriu seus poderes, mas a força dele é mostrada em uma luta contra o Homem de Ferro. Depois de muita agressão, eles descobrem que na verdade estavam em uma emboscada feita para que se enfrentassem. O inimigo de ambos havia pensado em tudo!

Nas páginas seguintes, Luke Cage e Punho de Ferro se conhecem. Além de ler sobre os primeiros passos dos heróis, é curioso acompanhar como eles deram origem à parceria dos Heróis de Aluguel no combate ao crime.

A Netflix também tem uma série sobre o personagem Punho de Ferro! Clique aqui para assistir.

A revista reúne as publicações "Luke Cage - Hero for Hire 1", "Iron Fist 1", "Power Man 48-49" e "Power Man and Iron Fist 50-54".

  

Você também gosta de histórias de super-heróis? Qual poder gostaria de ter se fosse um?

* cortesia da editora 

[Resenha] - Livro: Diário de Pilar na Grécia

Diário de Pilar na Grécia
♥ Resumo 

O livro "Diário de Pilar na Grécia" é o primeiro da série escrita por Flávia Lins e Silva, ilustrada por Joana Penna e publicada pela quena Pequena Zahar.

Nesta obra, os personagens que acompanharão a protagonista em todas as aventuras são apresentados: Breno, o melhor amigo de Pilar, assim como Samba, o gatinho de estimação dela, e a mãe da menina.

O avô de Pilar viaja para a Grécia, mas não retorna. Pilar ouve a mãe ao telefone, recebendo a notícia, mas mantém a esperança de que irá reencontrá-lo. Então, ela cai em sua rede de balanço mágica e vai parar na Grécia, com seu gatinho e Breno.

Lá, eles conhecem os deuses do Olimpo e são desafiados em uma competição que lembra as Olimpíadas (mas com muita magia envolvida!).

E quanto ao avô, hein? Será que Pilar consegue falar com ele? Vontade e coragem não faltam à menina - que vai até o Mundo dos Mortos, se preciso for.

 Opinião: Sou suspeita para falar da Pilar, né? Para quem não sabe, minha pesquisa de Mestrado é sobre a série e, a cada dia, fico mais encantada por esse projeto. Flávia Lins e Silva não subestima a inteligência da criança, acrescenta informações interessantes sobre a mitologia e a história gregas. 
 Avaliação: 

Leia também:
[Resenha] - Livro: Diário de Pilar em Machu Picchu
[Resenha] - Livro: Diário de Pilar na África


* cortesia da editora

E aí? Conhece alguma criança - de qualquer idade - que gostaria de viajar com a Pilar? 

[Resenha] - Livro: Coisa de Menina


Coisa de Menina, Pri Ferrari
Capa do livro Coisa de Menina, Pri Ferrari
Boa tarde, ratinhos! Hoje é o Dia das Crianças e, em meio a tanto ódio, desinformação, preconceito e sexismo, gostaria de sugerir um livro infantil maravilhoso que comprei recentemente.

O livro "Coisa de Menina", escrito e ilustrado por Pri Ferrari, foi publicado pela Companhia das Letrinhas.

É muito emocionante encontrar livros feitos com tanto carinho e cuidado, especialmente para bebês. As ilustrações, o tema e a pertinência da obra, no entanto, ampliam essa classificação etária e conseguem tocar leitores de diversas idades.

O que as meninas podem ou não podem fazer? A resposta, em ilustrações repletas de sensibilidade, é que elas podem tudo.

Profissões, características e sonhos comumente associados ao universo masculino podem (e devem!) ser conquistados pela mulher, caso ela queira. O feminismo é isso: a convicção de que a mulher tem o direito de ocupar os mesmos lugares que o homem. De desenvolver suas habilidades ao máximo, de ser incentivada a atingir seus objetivos, por mais difíceis que pareçam ser.
Coisa de Menina, Pri Ferrari
Ser esposa, mãe ou dona de casa são exemplos de destinos que as meninas são exaustivamente motivadas a buscar, seja pelas brincadeiras, pelo sistema educacional e pela própria conformação social. São atribuições lindas e valiosas, mas não podem ser vistas como as únicas opções em aberto. Elas são tudo o que podemos oferecer? Obviamente que não.

Por sorte, hoje temos rostos femininos ocupando posições de visibilidade, garantindo que as atuais e as próximas gerações tenham em quem se espelhar. Isso não quer dizer que ao longo da história as mulheres não tiveram importância. O trabalho "de formiguinha" vem sendo feito desde sempre, resistindo ao silenciamento e à dominação masculina.

Coisa de Menina, Pri FerrariO livro de Pri Ferrari conduz meninas e meninos para a igualdade de gênero. O cenário limitante a que nós somos submetidas só será transformado pela educação. Se na escola esse tema é considerado um tabu (o que não faz o menor sentido), podemos tentar essa mudança através da educação em casa, com o apoio de publicações como esta.

Já sou adulta, uma mulher. Moro sozinha, sou dona de casa, além de jornalista e mestranda. Carrego comigo sonhos que mantenho desde criança, como o de casar e o de ser mãe. Tenho certeza de que um dia irei realizá-los. Mas antes - ou no caminho - disso, não me privarei de conquistar e transformar o mundo. De outras e de todas as formas que eu quiser. Porque isso sim é coisa de menina.
Coisa de Menina, Pri Ferrari
Coisa de Menina, Pri Ferrari


Que todas as crianças sejam livres e felizes!
E para você? O que é coisa de menina?

[Resenha] - Livro: Leocádio, o leão que mandava bala

Leocádio - O leão que mandava bala 
"Leocádio - O leão que mandava bala", escrito por Shel Silverstein e publicado pela Cosac Naify, é um divertido livro infantil que aborda a questão da identidade.

O protagonista do livro vivia em paz na floresta até a chegada dos caçadores. Um dia, ele conseguiu pegar a arma de um deles e aprendeu a atirar. Com isso, passou a proteger seu companheiros leões.

O "talento" com a arma fez com que ele chamasse a atenção de um circo. Foi viver com os humanos e, então, recebeu o nome de Leocádio (antes, seus companheiros na floresta o chamavam de algo parecido com Grrrrrrrrrr).

Com os homens, fez sucesso e muito dinheiro. Mas acabou ficando viciado em coalhada e sentindo-se perdido. Depois de muitas aventuras e desventuras, Leocádio decidiu voltar para a floresta. Porém, quando chegou lá, ele já não se sentia mais um leão.

Opinião: A fábula moderna de Shel Silverstein é envolvente e interessante. O texto é leve, mas carrega algumas críticas sociais ácidas de maneira subentendida. Adivinhem por que eu comprei o livro? Pelo título, óbvio! hahaha E, felizmente, foi uma boa leitura. As ilustrações minimalistas são bonitas e a capa dura deu um charme a mais à edição. 

Avaliação: 

Você já leu algum livro em que o protagonista tem o mesmo nome que você?

[Resenha] - Livro: Pequenas Grandes Mentiras (Big Little Lies)

Pequenas Grandes Mentiras (Big Little Lies), Liane Moriarty
Capa do livro Pequenas Grandes Mentiras, Liane Moriarty
O livro "Pequenas Grandes Mentiras", escrito por Liane Moriarty e publicado pela Editora Intrínseca, inspirou a série Big Little Lies, da HBO.

A história se passa em uma cidadezinha no litoral da Austrália. O que une as três personagens centrais são os filhos, que estão entrando na mesma turma do jardim de infância.

Celeste é uma mulher deslumbrante, mãe de gêmeos bagunceiros. Ela abriu mão da carreira de advogada para se dedicar integralmente ao casamento.

Madeline é brigona, dramática e extravagante. Tem três filhos, sendo a mais velha fruto do primeiro casamento. A relação com o ex-marido é complicada e repleta de mágoas.

A mais jovem de todas as mães do jardim de infância é Jane. Criando o filho sozinha, sem revelar a ele qual o nome do pai, a moça de 24 anos acaba de chegar na cidade e já se vê presa em uma confusão, depois que seu filho foi acusado de praticar bullying na escola.

As três mulheres estão em diferentes fases da vida e possuem, em comum, a capacidade de seguir adiante mesmo com tudo desmoronando. Pequenas mentiras são essenciais para que ninguém de fora perceba o quanto a realidade é dura.

Já nas primeiras páginas, o leitor descobre que um dos pais deste grupo de crianças morreu de forma trágica. Ao longo de toda a narrativa, a curiosidade para descobrir quem é a vítima do crime deixa a leitura envolvente e atrativa. Os capítulos são curtos e, ao final de cada um, existem trechos de depoimentos dados à polícia durante as investigações da tragédia.

De um lado, há o bullying na escolinha e do outro, os relacionamentos complicados entre os adultos da cidade. É difícil diferenciar qual grupo é o mais agressivo e qual é o mais infantil.

O livro deixa claro que a violência contra a mulher não possui faixa etária, nem classe social. Todas estão sujeitas a isso. Felizmente, também não existem limites para a força e o apoio mútuo entre elas.

 Leia algumas páginas de "Pequenas Grandes Mentiras" e visite o site do livro;
♥ Trailer da série da HBO:

Quais mentiras você costuma contar para fingir que está tudo bem?

Você já segue o @rdebiblioteca no Instagram? Estou participando do Inktober e postando meus desenhos no perfil do blog ;) Além disso, logo teremos um sorteio bem legal por lá!

Beijo e até a próxima!

* cortesia da editora

[Resenha] - Livro: Como combater a fúria de um dragão

Como combater a fúria de um dragão, Cressida Cowell
Como combater a fúria de um dragão, Cressida Cowell
O livro "Como combater a fúria de um dragão", de Cressida Cowell, encerra a série "Como treinar seu dragão", publicada pela editora Intrínseca. Após 12 livros com as aventuras de Soluço e Banguela, dizer adeus aos personagens não é fácil.

Nesta última história, Soluço Spantosicus Strondus III está desmemoriado e precisa enfrentar Alvin, o Traçoeiro, para ser coroado Rei do Oeste Mais Selvagem.

Aquele que conquistar o trono terá nas mãos também o destino de todos os dragões: matá-los ou deixá-los viver. Nosso herói, obviamente, quer que os seres mágicos continuem existindo e, por isso, mesmo confuso sobre quem é, luta para conseguir a vitória.

Em 496 páginas, Cressida Cowell parece não conseguir se despedir de suas criaturas mágicas. Com o mesmo bom humor visto ao longo de todas as publicações, o livro tem um final previsível, mas interessante. No entanto, o epílogo da obra pareceu se destoar de toda a narrativa construída ao longo desses últimos anos.
Opinião: Gostei, como venho gostado de todos os livros da série "Como treinar seu dragão". Dei boas risadas e também me emocionei. Somente este epílogo tão cheio de lições de moral é que me incomodou. Achei bem desnecessário e me passou a impressão de que a autora não estava conseguindo parar de escrever. Entendo, afinal, foram 13 livros, mas não precisava disso.  Eu curto muito esses personagens vikings haha E, apesar de os filmes e de o seriado da Netflix serem apenas levemente inspirados nos livros, gosto dessas adaptações também. 
* cortesia da editora

[Resenha] - Filme: Medianeras - Buenos Aires na Era do Amor Virtual

Normalmente, filmes nos apresentam músicas. Você assiste ao filme e a trilha sonora te encanta de alguma maneira. Comigo, com Medianeras - Buenos Aires na Era do Amor Virtual, aconteceu o contrário. Achei na internet, aleatoriamente, a música True Love Will Find You In The End, de Daniel Johnston. Nos comentários do site de letras, estavam várias pessoas falando sobre como tinham ido parar ali por causa de "Medianeras". Por ter gostado tanto da música, resolvi assistir - e estou encantada até hoje.

O filme foi lançado em 2011, com direção de Gustavo Taretto. A história começa com uma análise de Buenos Aires. Os prédios, o crescimento desordenado, os fios, a vista tampada, a hierarquia dos apartamentos, a falta de espaço, de luz, de contato. A tecnologia que aproxima e que afasta. Tantas pessoas tão próximas e, ao mesmo tempo, tão ridiculamente distantes umas das outras.

Então, o primeiro narrador se apresenta: Martin. Ele nos conta sua história naquela cidade, sua relação com ela, suas dificuldades, temores, gostos. Cada detalhe é explorado, e é como se fôssemos amigos de infância daquele personagem. Conhecemos sua casa, sua cachorrinha, seu trabalho, sua rotina. Depois, somos apresentados a Mariana, a segunda narradora. Ela também nos expõe cada aspecto de sua realidade - o fim de um relacionamento longo, a fobia de elevadores, o pequeno apartamento.

A imagem se forma como um quebra-cabeça: Martin e Mariana. Duas pessoas solitárias que, juntas, provavelmente dariam muito certo. Ambos vivem em Buenos Aires e seus caminhos se cruzam diversas vezes, sem que, contudo, eles se conheçam.

O filme é delicado, sutil e muito intenso. Ele explora a alma humana, as particularidades de cada um, os medos, os sonhos, as vontades. E, além disso, ele faz uma análise excelente da "Era do Amor Virtual", das grandes cidades, dos relacionamentos e da solidão.


Medianeras entrou de forma definitiva para minha lista de filmes favoritos. É um filme que vale a pena ser visto! /amei


[Resenha] - Livro: Outros jeitos de usar a boca

Outros jeitos de usar a boca, Rupi Kaur
Outros jeitos de usar a boca, Rupi Kaur
O livro "Outros jeitos de usar a boca", de Rupi Kaur, foi publicado no Brasil pela editora Planeta. O título original da obra, escrita em inglês, é "Honey and milk". Em 208 páginas, o leitor é convidado a sentir na pele as experiências da autora.

Divididos em "A dor", "O Amor", "A Ruptura" e "A Cura", os poemas da jovem são intensos, escritos de forma direta e cheios de emoção. Por todo o mundo, jovens se reaproximaram da poesia graças a esse livro. Os temas presentes nele são universais.

É difícil uma mulher não se identificar com pelo menos um dos textos que compõem a obra. Se em alguns momentos o livro é um abraço reconfortante, em outros ele é um soco no estômago.
 Outros jeitos de usar a boca, Rupi Kaur
Capas do livro Outros jeito de usar a boca pelo mundo. (Foto: Rupi Kaur)

Há muita dor, muito conhecimento de si mesma e muita maturidade no que Rupi colocou neste livro. As ilustrações minimalistas são um charme à parte, reforçando a sensibilidade da escritora.

Ser mulher é uma experiência de beleza, luta e complexidade. Ver que uma de nós está vendendo milhões de cópias que falam sobre o universo feminino com certa brutalidade é um sopro de esperança. As coisas estão começando a mudar.
(Foto: @rdebiblioteca)
Rupi Kaur anunciou que vai lançar, no dia 3 de outubro, seu segundo livro ("The sun and her flowers"). Já estou ansiosa!

quero pedir desculpa a todas as mulheres
que descrevi como bonitas
antes de dizer inteligentes ou corajosas
fico triste por ter falado como se
alto tão simples como aquilo que nasceu com você
fosse seu maior orgulho quando seu
espírito já despedaçou montanhas
de agora em diante vou dizer coisas como
você é forte ou você é incrível
não porque eu não te ache bonita
mas porque você é muito mais do que isso

Avaliação:

[Resenha] - Livro: Papai!

Papai!, Philippe Corentin
Papai!, Philippe Corentin
Papai!”, grita o garotinho já na capa do livro escrito e ilustrado pelo francês Philippe Corentin. Em 32 páginas, editadas pela Cosac Naify, o leitor é convidado a entrar em uma bem humorada história sobre os pesadelos. A cor preta da capa e da contra capa situam o enredo na noite, antes mesmo de isso ser explicitado pelo texto (verbal e imagético).

Dormir sozinho pode ser difícil para muitas crianças. É comum que tenham medo e chamem pelos pais durante a noite. O livro “Papai!” começa com um garoto dormindo tranquilamente até ser acordado por algo estranho. Quando percebe que está acompanhado de um monstro verde na cama, fica assustado.

Papai!, Philippe CorentinOs dois personagens gritam “Papai!” ao mesmo tempo. A narrativa surpreende ao mostrar, na página seguinte, o pai do monstrinho e não o do garoto. Desse modo, a ilustração se mostra essencial na composição da obra, carregando sentidos que não poderiam ser apreendidos apenas pelo texto verbal.

Quando o pai monstro chega ao quarto, o monstrinho diz: “Pai! Pai! Tem um monstro na minha cama!”, apontando para o garoto deitado sob as cobertas. O pai diz ter sido apenas um pesadelo e leva o monstrinho para a sala, onde está a mãe dele. Depois de ser acalmado por ela, o pequeno volta para a cama.

Então, humano e monstro acordam assustados novamente e, dessa vez, é o pai do garoto quem vai ver o que há de errado. “Pai! Pai! Tem um monstro na minha cama!”, diz agora o garotinho.

Essa brincadeira com o diferente é o que torna a obra especial. Ao mesmo tempo em que se aproxima de um problema da infância (dormir longe dos pais), traz elementos ficcionais que mexem com o imaginário do leitor. Essa dualidade é apresentada por Bernardo (2005) como indício de uma boa ficção que, segundo ele, não pode ter tudo a ver com a realidade, nem tudo a ver com o leitor.

O final encanta ao reforçar que não é preciso temer o desconhecido.
Dados do livro
Corentin, Philippe [1936-]
Papai!: Philippe Corentin
Título original: Papa!
Tradução: Cássia Silveira
Ilustrações do autor
São Paulo: Cosac Naify, 2008, 2ª edição
32 pp. ilustradas
ISBN 978-85-405-0752-4
Monstrinho sendo acalmado pela mãe. Ilustração da página 13 do livro Papai!, de Philippe Corentin

[Convite] - Lançamento: Livro Rastros de Mentiras e Segredos

Boa noite, ratinhos!

Gostaria de convidá-los para o lançamento do livro "Rastros de Mentiras e Segredos", escrito por Cleudene Aragão, Inês Cardoso, Maria Thereza Leite, Ruth de Paula e Vânia Vasconcelos. A coletânea de contos é a segunda obra assinada pelas cinco autoras, também responsáveis por "Quantas de nós".

Em Belo Horizonte, a obra será lançada no encerramento do IX Colóquio Mulheres em Letras, organizado pela Professora Constância Duarte.

A sessão de autógrafos está marcada para o dia 2 de junho, das 19h às 20h30, no auditório 1007 da Faculdade de Letras (Fale) da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

Vamos ler mulheres!


[Resenha] - Conto: To be or not to be, Machado de Assis

Machado de Assis
Machado de Assis 
O suicídio é um tema delicado e tem levantado discussões entre os jovens desde o lançamento da série "13 Reasons Why" ("Os 13 Porquês"), da Netflix, em março deste ano. Com o sucesso do seriado estadunidense, o livro homônimo que deu origem a ele, escrito por Jay Asher e publicado em 2007, figura nas listas dos mais vendidos.

Mas o tema não é novidade na ficção não! "To be or not to be", um conto escrito por Machado de Assis, em 1876, também fala de suicídio. No entanto, em vez de descrever as razões pelas quais uma pessoa se matou, o texto mostra os motivos que fizeram o protagonista - decidido a tirar a própria vida - mudar de ideia.

A estagnação na carreira e a falta de perspectivas levaram André, um homem de 27 anos, a planejar se matar. Ele ficou abalado por não ter conseguido uma sonhada promoção e, acreditando ser um fracasso, pegou uma barca com a intenção de se lançar ao mar.
"Mas André Soares que, estando com os olhos pregados no chão a rememorar os seus infortúnios, deu com os olhos num dos pés da velada desconhecida.
Estremeceu.
André Soares resistia a tudo neste mundo, a uns olhos brilhantes, a um rosto adorável, a uma cintura de anel; não resistia a um pé elegante"
Ao descobrir em Cláudia - a dona do pé elegante - uma paixão, André resolveu adiar seu terrível plano para ter a chance de conhecê-la. O pensamento fúnebre deixou de lhe ocorrer e o homem passou a ter outras ocupações e interesses além da vida profissional. O leitor, então, é lançado às piadinhas e às descrições de Machado de Assis que, com ironia, trata de assuntos atemporais.

Na ausência de um pedido formal de casamento, a jovem não se considerava comprometida. Ingênuo e apaixonado, André Soares foi deixando de ter controle sobre a conquista e, tendo que agradar a um potencial cunhado, perdeu dinheiro e tempo.

O título do conto é uma alusão à clássica frase de Hamlet, de William Shakespeare. "Ser ou não ser? Eis a questão". A moral da história retoma o tema suicídio. Para o narrador - onisciente e ácido - os motivos que levam alguém à dar fim à própria vida vêm mais de dentro do que de fora. Será mesmo?

A obra de Machado de Assis pode ser baixada no site Domínio Público. O conto "To be or not to be" também está disponível para download gratuito na Amazon.

[Resenha] - HQ: Horacic Park

Boa tarde, ratinhos!

Recebi nesta semana a HQ "Horacic Park", da Turma da Mônica, publicada pela Panini Books. O dinossauro Horácio, criado por Mauricio de Sousa, é o destaque dessa coletânea que brinca com o filme "Jurassic Park". As histórias "Horacic Park", "Imundo Perdido" e "Horacic Park III" compõem a obra, que faz parte da coleção "Clássicos do Cinema - Turma da Mônica".

Com miolo em papel couché, a HQ tem 144 páginas, capa dura e lombada quadrada. Esse formato de luxo comemora as mais de 50 edições já publicadas de paródias de filmes protagonizadas pelos heróis da turminha.

Mônica, Cebolinha, Cascão, Magali e Maurício de Sousa (que aparece como personagem!) precisam enfrentar os planos mirabolantes do Capitão Feio. Em "Horacic Park", os dinossauros voltam à vida graças a uma sofisticada tecnologia desenvolvida pelo cientista Franjinha.

Além das aventuras que formam a trilogia jurássica, o livro traz dez páginas com imagens de artes, esboços e curiosidades. O lançamento do próximo volume encadernado está previsto para julho. Qual será o filme clássico desta vez?

Como não gostar da Turma da Mônica?
* cortesia da editora 

[Resenha] - Livro: Profissões para mulheres e outros artigos feministas

Profissões para mulheres e outros artigos feministas, Virgínia Woolf
Profissões para mulheres e outros artigos feministas, Virgínia Woolf
Se hoje nós, mulheres, enfrentamos preconceito e perseguições no mercado de trabalho, imagine no século passado? O livro "Profissões para mulheres e outros artigos feministas", publicado pela L&PM, traz um apanhado de textos de Virgínia Woolf (1882-1941) sobre ser mulher em um mundo dominado por homens.

A obra é formada por sete ensaios escritos pela conhecida romancista. Um deles, inclusive, foi apresentado pela autora como discurso em um evento feminino. O destaque é a inserção da mulher no mercado de trabalho.

Infelizmente, as reflexões continuam pertinentes em 2017. Por que temos sempre atrás de nós o espírito do "anjo do lar" que nos impede de exercitar nossas capacidades ao máximo? Dizemos que somos livres, mas cobranças e crenças nos aprisionam.

Diante das resenhas literárias de Woolf presentes neste livro de bolso, senti vontade de colocar fogo em tudo o que já escrevi e chamei de resenha na vida. A inteligência e a habilidade da escritora para falar de livros me deixaram em êxtase. Ela criticava o machismo com ironia e pulso firme.

Depois de terminar esta leitura, fiquei curiosa para conhecer outros trabalhos de Virgínia. Estou lendo o romance "As Ondas", mas estou achando muito difícil. Se alguém já tiver lido um destes dois, ficarei feliz em discuti-los.

Beijo grande e até o próximo post!

[Resenha] - Livro: Angélica

Angélica, Lygia Bojunga
Angélica, Lygia Bojunga
Resumo

O livro "Angélica", escrito por Lygia Bojunga e publicado pela editora Agir, conta a história de uma cegonha que cansou de viver uma mentira. A obra possui 96 páginas e ilustrações de Vilma Pasqualini.

Ela descobriu, bem jovem, que as cegonhas não são responsáveis por trazer bebês ao mundo e isso a abalou profundamente.

Inconformada, quis saber dos pais por que é que eles mantinham essa ilusão. A família disse que não podia abrir mão do respeito e do status que essa história dava às cegonhas.

Ela decidiu morar no Brasil, pois soube que no país não havia cegonhas. Mas o mito dos bebês existe mesmo tão longe de casa! Ela fez amizade com um porco chamado Porto (que trocou o "c" de seu nome por um "t" para tentar fugir do que era naturalmente). Os dois montaram, juntos, uma peça de teatro com a história de Angélica.

Os atores contratados pela dupla são animais desempregados, como um elefante, um casal de crocodilos e um sapo com seus filhinhos. A narrativa é divertida e traz aspectos muito interessantes sobre autonomia, coragem, bullying e feminismo.

Ilustração do livro Angélica, de Lygia Bojunga. Crédito: Catedra Unesco de Leitura PUC-Rio

Opinião

Que livro mais lindinho! Fiquei impressionada com o quanto o feminismo está presente na obra, escrita em 1975. Parece que hoje os autores para crianças não têm essa mesma coragem. O empoderamento feminino está nas entrelinhas, com personagens femininas bem construídas e encantadoras. Para mim, o mais marcante foi a personagem secundária "mulher do crocodilo Jota".

Ela aparece nomeada assim em boa parte da história, como se fosse um acessório do crocodilo. A crescente transformação desta personagem - que chega ao ápice na última página do livro - me chamou atenção. (Não escrevi o nome dela aqui de propósito, ok? rs)

A amizade entre a cegonha Angélica e o porco Porto é demais. E até mesmo a família da protagonista é fofa e dá para perceber que eles se preocupam com ela, mesmo achando Angélica muito diferente dos demais. Peguei o livro na biblioteca por causa do título - é o nome da minha mãe - e foi uma grata surpresa. (Não muito surpreendente porque é Lygia Bojunga, né?)

Avaliação


Beijo e até o próximo post! ♥ 

[Thaís Diz] - Relendo Harry Potter

Bom dia, ratinhos!

Quem nos segue lá no Instagram viu que estou relendo Harry Potter. Minha meta é reler a série toda durante 2017. Pelo ritmo em que a coisa anda, vou atingir meu objetivo mais cedo do que pensei. Ontem à noite, (re)comecei o terceiro livro ("Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban", meu preferido!) e quis falar um pouco dessa experiência.
Edição ilustrada de "Harry Potter e a Pedra Filosofal" e marcador de páginas feito por mim em ponto cruz.

Vira-tempo ♥
Meu encantamento pelo texto de J. K. Rowling continua gigante, como se estivesse abrindo os livros pela primeira vez. Diante das aventuras dos personagens, não vejo diferença entre a adolescente que se debruçava sobre os livros emprestados por horas a fio e a mulher que hoje pega o Kindle nos minutinhos que tem entre as atividades do dia a dia.

A releitura tem me feito observar que os detalhes são realmente muito bem amarrados desde o primeiro livro. Coisas em "Harry Potter e a Pedra Filosofal" e "Harry Potter e a Câmara Secreta" serão explicadas só lá na frente e isso é muito, muito legal!

Em meio a uma crise de ansiedade, segurei o e-reader e as palhaçadas de Fred e Jorge me fizeram rir. Uma cena ridícula, pensei. Mas eu precisava tanto daquilo! Se, anos atrás, os livros sobre o mundo mágico eram uma forma de fugir da realidade de bullying e sofrimento causados por colegas da escola, hoje eles estão me salvando de mim mesma.

De toda forma...
"Não faz bem viver sonhando e se esquecer de viver."
- Alvo Dumbledore, em "Harry Potter e a Pedra Filosofal"

[Reportagem] - Síndrome de Down, inclusão e autonomia

Oi, ratinhos! Hoje, dia 21 de março, é comemorado o Dia Internacional da conscientização e celebração da síndrome de Down. No ano passado, escrevi uma reportagem sobre o tema para uma revista aqui de BH. Foi, sem dúvida alguma, a matéria que mais me fez pensar e evoluir como profissional. As entrevistas foram marcantes e também aprendi muito sobre a parte técnica da produção (quais termos usar e quais não usar, por exemplo). Agradeço imensamente às famílias que concordaram em dividir essas histórias comigo e espero que vocês se encantem tanto quanto eu! Abaixo, segue a matéria completa. Boa leitura! :)

Síndrome de Down, inclusão e autonomia
Conheça famílias que lutam pelo respeito à diversidade
por Thaís Leocádio
Antônio, Carol, Thomas e Alice, em 2015. Foto: Arquivo pessoal


Eduardo Gontijo é multi-instrumentista, tem 25 anos, faz teatro, dança, está em duas bandas e dá palestras pelo Brasil. Theo Dariva Lara tem seis anos, é curioso, adora livros e mal vê a hora de aprender a ler. Alice Rivello Ventura de Souza tem quatro anos, gosta de ver desenho animado, é gentil e engraçada. Os três têm síndrome de Down e famílias que lutam pela inclusão.

De acordo com o último levantamento feito pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 6,2% da população brasileira possui algum tipo de deficiência. A síndrome de Down é uma condição genética causada pela presença de um cromossomo 21 extra que determina características físicas e cognitivas específicas. Segundo o Ministério da Saúde, cerca de 270 mil brasileiros apresentam a trissomia do 21.
Dudu do Cavaco é multi-instrumentista. Foto: @keldepaulafotografia
Dudu do Cavaco, como Eduardo Gontijo é conhecido, se interessa por música desde cedo. “Eu comecei a tocar cavaquinho vendo meu primo Igor, fui observando a mão dele e eu quis saber cada vez mais sobre mais o cavaquinho. Hoje eu vivo da música e amo o que eu faço”, afirmou o artista, que toca mais outros seis instrumentos.

Leonardo Gontijo teve a vida transformada pela chegada do irmão. “Aquela troca de olhares mudou a minha vida, me mostrou o quanto eu era limitado, seletivo e preconceituoso”, contou o professor e consultor na área de sustentabilidade. O amor por Dudu e o desejo de construir uma sociedade menos desigual inspiraram Leonardo a criar o projeto Mano Down, em Belo Horizonte, no ano passado.

O objetivo do instituto é contribuir para que pessoas com síndrome de Down conquistem a autonomia e possam ser donas de suas escolhas. Entre as ações desenvolvidas pelo Mano Down estão aulas (de música, teatro, dança, capoeira e zumba), acolhimento familiar, capacitação para o mercado de trabalho e palestras.

No quinto mês de gestação, o médico de Angela Dariva Lara desconfiou que o bebê dela poderia ter uma síndrome, devido a uma deficiência no coração. Receber a confirmação não foi fácil. “Me fiz aquelas perguntas que sempre fazemos diante de problemas: ‘Por que eu?’, ‘Eu não mereço isso, mereço?’ Mas passou. Porque tudo passa”, lembrou Angela.

Ela, o marido Marco Tulio Lara (guitarrista do Jota Quest) e o filho mais velho João Marcos tiveram, então, alguns meses para se prepararem para a chegada do Theo. “Pesquisei em fontes seguras, com profissionais competentes, pediatras, cardiopediatras, obstetras”, disse Angela.

Hoje, Theo estuda em uma escola inclusiva e faz atividades extraclasse, como equoterapia, natação e acompanhamento com uma psicopedagoga. “Ele é a única pessoa que tira o irmão de 12 anos da frente do computador, sem reclamações. Só ele consegue esse milagre!”, brincou a mãe.

Theo Dariva Lara é curioso e adora livros. Foto: Kely Aguiar
Segundo Angela, a família colhe o que pais precursores lutaram para conquistar para seus filhos com deficiência. “Theo é a pessoa mais feliz que nós já vimos – e olha que conheço muita gente! (risos) Adora pessoas, passear, festas de aniversário. Ele ama viver em comunidade”, descreveu Angela.

A designer gráfico e ilustradora Carol Rivello é mãe da Alice e do Antônio (1 ano e 9 meses). Ela e o marido Thomas Ventura de Souza moram em Florianópolis (SC) e descobriram que a primeira filha tinha síndrome de Down um dia após o nascimento da menina. “Foi um momento muito difícil, onde parecia que o chão havia sumido”, disse Carol.

Eles nem esperaram o resultado oficial dos exames e já deram a notícia para toda a família. “Logo todos já estavam encantados pela pequena e percebendo que muitos dos medos eram, na realidade, preconceitos ultrapassados”, completou. Carol criou o blog “Nossa vida com Alice”, onde compartilha reflexões, informações pertinentes e histórias de outras famílias.

Alice, assim como Theo, estuda em uma escola regular. Ela faz acompanhamento com profissionais como optometristas, naturopatas, osteopatas, fisioterapeutas e fonoaudiólogos. Quando está com o irmão caçula, a farra é garantida! “Me sinto privilegiada em testemunhar esse carinho sendo construído aos poucos dia após dia”, comentou Carol.

Dentro do blog, a designer gráfico compartilha projetos de “faça você mesmo”, na série “Estimular é um barato!”. A ideia é mostrar que coisas acessíveis do dia a dia podem ser úteis em brincadeiras e atividades de estimulação. “Faço porque acredito que a criança merece brincar, se divertir, experimentar, crescer em um ambiente rico e favorável para seu desenvolvimento”, explicou.

Inclusão efetiva

Angela Dariva acredita que aceitar as diferenças de uma forma natural é essencial para a verdadeira inclusão. “Somos todos diferentes. Nós não temos as mesmas capacitações e nunca teremos, mas todos temos coisas boas e ruins. Quanto mais convivermos com as diferenças, principalmente nossas crianças, mais isso será tratado com normalidade”, defendeu a mãe do Theo.

Segundo Carol Rivello, o que falta é acreditar, oportunizar, viabilizar. “Entender que as pessoas com síndrome de Down são capazes de estudar, trabalhar, participar ativamente da sociedade”, completou a designer gráfico. “Costumo falar que não existe um ‘curso de diversidade’, precisamos conviver para aprender”, reforçou Leonardo Gontijo.

Para os pais que estão recebendo agora a notícia de que têm um filho com síndrome de Down, o conselho das três famílias é o mesmo: amor. “Talvez ele precise de maior atenção médica e com certeza se beneficiará de estimulação precoce, mas a realidade da pessoa com síndrome de Down é bem diferente da de décadas passadas e está evoluindo cada vez mais”, disse Carol.

“Ele vai mostrar coisas maravilhosas em pequenos atos, vai desenvolver em vocês um amor verdadeiro ao próximo, vai simplificar coisas que antes vocês não entendiam”, comentou Angela. “Abram o coração para um novo mundo de aprendizados e possibilidades e contem com o Mano Down para o que precisarem”, finalizou Leonardo Gontijo.

Links úteis:
Blog Nossa Vida com Alice
Canal Nossa Vida com Alice no YouTube
Projeto Mano Down
Site do artista Dudu do Cavaco