[Calendário] - Dia D

Inspiradas no projeto diaD, decidimos prestar uma pequena homenagem ao poeta Carlos Drummond de Andrade que comemoraria hoje seu aniversário. Abaixo está um conto escrito por mim no ano passado. Através dele é possível conhecer um pouco da história de Carlos de maneira metafórica e sensível. Espero que gostem!
O menino
Thaís Cabral Leocádio

O menino brincava no chão da fazenda dos Andrade. Escrevia na terra palavras engraçadas. Desenhava bois, desenhava estradas. Era tão esquisito, o menino. Era deslocado, era fechado. Sorria pouco, pensava demais. Passava tanto tempo alheio ao que acontecia a sua volta. Gostava do café preto que a negra lhe fazia. Olhava a mãe cosendo, o pai trabalhando no mato. O menino via o irmãozinho dormindo. E gostava bastante de ler.

Foi para a escola, onde aprendeu algumas coisas boas – e outras nem tão boas assim. Em um dos lugares em que estudou – Colégio Anchieta – uma discussão com o professor de Língua Portuguesa acabou tendo como resultado uma injusta expulsão e uma eterna descrença na justiça dos homens. 

E a sensibilidade dele foi transferida para papéis dobrados, recortados. E todo o seu conhecimento de menino foi armazenado num lugar sublime onde todas as palavras, cuidadosamente construídas, são expostas para qualquer um que se disponha a apreciá-las, aprecie-as. 

O menino ganhou o mundo, tinha-o na palma das mãos. Mãos que tracejavam versos com conteúdo e faziam mágicas secretas nos silenciosos instantes de solidão que o atingiam. Construiu pontes, rostos, homenagens. O pequeno olhava o mundo todo com curiosidade e armazenava-o carinhosamente em seu coração.

De início, ele desejou guardar apenas aquilo que fazia parte do mundo que havia dentro dele: suas angústias, seus medos, seu descontentamento e tudo aquilo que o deixava atordoado. Seu esconderijo secreto sob as armações dos óculos tornou-se inútil graças a essa prática. 

Conheceu outros garotos que também gostavam de fazer o que ele fazia e decidiu apoiá-los num projeto de inovação. Era divertido e por que não fazer parte? Escreveu então sobre uma pedra – como aquelas que ele usava para espantar os passarinhos na fazenda – e causou um misto de admiração e espanto nas pessoas grandes.

Mais tarde, percebeu que o seu professor de Português não era o único ser humano indigno de afeto. Chegou à conclusão de que o mundo era bem maior do que ele pensava e que seus problemas introspectivos eram pequenos demais perto do que outras pessoas tinham de passar por conta de outras tão cruéis. Chamavam aquilo de guerra. Falou sobre isso e deixou bem clara a importância de os homens darem as mãos em momentos difíceis assim. Abraçados, a dor cessaria mais rápido, ele tinha certeza.

Quantas dúvidas havia nele! Quantas perguntas nem mesmo o sábio José conseguia lhe responder. Passou algum tempo refletindo sobre o que estava acontecendo com ele e com os demais. Começou a analisar fatos que eram comuns a todas as pessoas. Aquilo que acontecia com os meninos que ele conhecia e também com os que viviam longe. Todos um dia tinham de morrer, não era? Por que tinham de partir? Qual o verdadeiro significado disso? Será que isso doía assim como esfolar o dedão jogando bola? 


E chegou o momento em que o menino começou a sentir falta da tranquilidade do início de sua aventura. Quis então eternizar sua família, sua pequena cidade natal, os personagens e as pernas dos bondes, os sorrisos e os casos comuns. Conseguiu, com seu dom, fazer tudo isso com bastante peculiaridade. Transformou tudo aquilo que poderia passar despercebido em obras de arte que hoje dançam na mente daqueles cujos olhos com elas se deparam.

Registrou amores, sentimentos que faziam bem, que faziam sofrer.  Registrou saudades. Armazenou em seu espaço magnífico cenas lindas e repletas de uma paixão pelas coisas simples. O garoto conseguia, escrevendo, tornar cenas tristes e alegres em fotografias fantásticas e admiráveis. Ele transformava a realidade em uma coisa bela – sendo ela sofrida ou não. Era diferente dos demais meninos, tanto na maneira de se expressar pela escrita, quanto no seu sorriso tímido.

E depois de tanto brincar com as palavras, ele se cansou. E partiu para um lugar tão lindo quanto aquele que ele imaginava existir logo após a terra em que os homens brigam inutilmente. Ele foi embora, mas deixou de presente para os meninos, que porventura se interessassem em sua passagem por aqui, um bocado de inspiração e uma marca eterna feita de versos na terra da literatura. Hoje é um anjo. Não desses que vivem na sombra, mas desses que iluminam e aquecem os corações daqueles que amam, que sofrem, que se preocupam com os problemas do mundo. Daqueles que são injustiçados, sensíveis... que são os gauches da vida.

[Resenha] - Cinco Minutos

Título: Cinco Minutos
Autor: José de Alencar
Editora: L&PM
Origem: Nacional
Edição: 1
Número de páginas: 80
Cinco Minutos, de José de Alencar, é uma história rápida, com apenas 80 páginas. No livro, o narrador é obrigado a pegar o próximo ônibus por um atraso de cinco minutos. No ônibus ele conhece e se apaixona por uma misteriosa mulher do rosto encoberto por um véu de seda.

Após um mês procurando sua amada, ele a encontra em uma ópera, mas ela foge. Para poupar o narrador de “um amor sem futuro”, ela parte para Petrópolis, deixando uma carta para seu amado, onde revela que já o observava antes mesmo do encontro no ônibus.

O narrador, apesar das advertências de Carlota, decide viajar para Petrópolis, encontrando vários imprevistos. Após muitos desafios vencidos, ele chega até sua amada.

Para descobrir o motivo das fugas de Carlota e o final desse romance, leia o livro!

Opinião: Tive que ler Cinco Minutos para uma prova de Literatura na escola e confesso que, se não fosse por isso, provavelmente nunca o teria lido. Porém me surpreendi com a história, e achei interessante descobrir mais sobre os costumes e hábitos da época em que o livro foi escrito. Por ser um livro bem pequeno, ele pode ser lido em poucas horas.

Avaliação: